segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Partilha de Maria Helena - Ex-Aluna do Sagrado Coração de Jesus



O que significou para minha vida ser aluna do Colégio do Sacré-Coeur de Jésus

Mesmo antes de ser aluna, minha ligação com o Colégio Sacré-Coeur de Jésus sempre foi muito forte. Na minha infância, ainda com quatro anos, todos os domingos subia ao Alto da Boa Vista com a família para visitar Tia Cilinha, Cecília Lisboa religiosa da Ordem, conhecida pelas alunas como Madre Lisboa.
Minha mãe, Maria Lisboa, inaugurou o Colégio da Glória que, mais tarde, passaria para o Morro da Graça, onde estudaram também, minhas irmãs Thereza e Lourdes Moraes.
Fui aluna do Morro da Graça de 1948 a 1959. Foram doze anos felizes e de gratas recordações. Lembro-me com alegria de Madre Regina minha primeira mestra de classe e que me ensinou a escrever. Entrei para o Colégio com sete anos no primeiro ano A ou, segundo as Madres francesas, a “onzièmme classe”, já lendo corretamente, mas sem saber escrever uma palavra. Apesar da choradeira diária, por não conseguir fazer a letra “e”, segui adiante com a ajuda preciosa e efetiva de Madre Regina. Durante os anos do primário era considerada por minhas professoras, uma aluna comportada e aplicada, com excelentes notas no boletim mensal. Nesse período, as minhas mestras de classe prediletas foram Madre Duvivier do 2º ano primário (dixièmme classe) e Dona Yvone do Admissão, com sua extravagante caneta de tinta turquesa.
Na adolescência ingressei no Ginásio, já não tão aplicada nem tampouco comportada, mas nunca fui reprovada e sempre contei com a orientação das Madres queridas. Madre Fortuna e Madre Paternot foram as que mais influenciaram na minha formação. Nesse período forjei minhas maiores amizades; Verinha Pucheu, Lucília Siffert, Lucia Miller minha afilhada de Crisma e Sonia Ballalai (em memória).
Já nos três anos do Curso Clássico, como éramos somente nove, formamos uma turma unida e solidária. Nessa época fortaleci minha amizade com Heloisa de Meira Lima e Rosina Fernandes, que até hoje me acompanham como Conselheiras na Diretoria da ANASC-BRASIL e Marina di Polto, atualmente Religiosa do Sagrado Coração. Nossa mestra de classe era a inesquecível Madre Chauvin, também nossa mestra de música. Com ela formamos um coral e nos apresentávamos em todas as missas festivas. Falando em festas, conhecidas para nós como “congés”, as minhas preferidas eram a da “Petite Marie” no dia 21 de novembro, a Festa de Mater e da ex-aluna em 20 de outubro e a comemoração do Sagrado Coração de Jesus sempre na primeira sexta-feira depois de Corpus Christi, quando todo o terreno do Morro da Graça era iluminado por tochas e velas para procissão que acontecia à noite com a participação da Banda dos Fuzileiros Navais contratada pelo marido da ex-aluna Violeta Telles Ribeiro, Almirante Leônidas Telles Ribeiro.
Mas, o maior legado que o Sacré-Coeur me deixou foi a minha espiritualidade, sobretudo a grande devoção que tenho a Mater.
Para finalizar, quero dizer que o Colégio Sacré-Coeur de Jésus está vivo e guardado na memória e no coração de quem, como eu, o conheceu, o amou e continua amando.

Maria Helena Pimenta de Mello
Presidente da ANASC-BRASIL
Aluna de 1948 a 1959

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Festa Junina!



Festa junina no Alto da Boa Vista! Muita brincadeira, descontração,
comidas típicas, aperitivos e claro uma QUADRILHA PRA NINGUÉM BOTAR
DEFEITO!  Toda a casa participou!
 
Tudo animado pelas profissionais da saúde: Lígia fonoaudióloga, Isabel e
Jeanice fisioterapeutas e Carolina informática. Começou na quinta pela
manhã e acabou na sexta à tarde. Nosso fôlego para festa continua
excelente!!!
Ir. Cléa - rscj

quarta-feira, 15 de junho de 2016

JUVENTUDE MYKY INICIA CURSO DE AGROECOLOGIA



HORIZONTE ABERTO – “MEKYNPJAHA KAAKIKA”. Assim foi denominado o Ensino Médio Técnico Profissionalizante em Agroecologia iniciado nesse ano de 2016 na Escola Estadual Indígena Xinui Myky, Aldeia Japuíra, município de Brasnorte MT.
O povo Myky vive a noroeste do Estado de Mato Grosso em áreas da Floresta Amazônica e do Cerrado, uma das poucas áreas remanescentes de transição entre os dois biomas.
Em 1971 eram apenas 23 pessoas quando foram contatados pelos missionários jesuítas.
Hoje, a comunidade Myky se compõe de 135 habitantes sendo que, na grande maioria, crianças e jovens.
São muito poucos os anciões, guardiões da cultura e da sabedoria ancestral de uma sociedade em que os valores fundamentais são a convivência e a partilha.  Um povo essencialmente agricultor, mantendo até hoje grandes roças comunitárias e familiares, com abundantes produtos crioulos, dedicando-se ainda à caça e à pesca.
            Trata-se de uma sociedade que vive a lógica da reciprocidade e cuja tônica social é a convivência harmoniosa com a natureza, consigo mesmo, com os outros e com o Sagrado. O povo myky mantém sua identidade cultural e seus valores tradicionais graças à ação pedagógica e socializante, um processo educativo que permeia o cotidiano e se insere também em todas as situações do contexto hodierno.
Mas, atualmente, após 45 anos do primeiro contato com a sociedade não índia, vivem inseridos em um contexto em que os dois mundos se confrontam e onde a lógica do mercado tenta superar a lógica da reciprocidade.
Foi portanto, frente a um panorama de desafios e utopias que se projetou o Ensino Médio em Agroecologia.
“CAMINHO SE FAZ AO ANDAR,
         E O HORIZONTE INCITA A CAMINHAR”.
A juventude myky encontra-se de fato frente a um horizonte aberto, um futuro tão instigante quanto desafiador.
As novas tecnologias, a economia de mercado, os atrativos de uma vida fácil, seguranças ilusórias de salários se contrapõem hoje à prioridade da preservação e sustentabilidade do território, realização dos rituais e fortalecimento do sistema educacional próprio.
O Ensino Médio em Agroecologia se delineou como caminho rumo ao futuro, ao horizonte de Bem Viver para as novas gerações.
Não foi fácil planejar, programar, estruturar, organizar e finalmente implementar um processo ao mesmo tempo pedagógico e administrativo, eivado de sonhos e de impasses, acompanhado de ventos favoráveis mas tendo também de superar muitas e muitas pedras no caminho.
Como aprendemos na vida myky, só foi possível fazer acontecer o curso, porque foram muitas as pessoas que, coletivamente, “wátuhowy” esboçaram e implementaram a proposta curricular e continuam agora se comprometendo com sua realização no dia a dia.
Alguns órgãos contribuíram no processo de implementação do curso. Destacamos a Coordenadoria de Educação Escolar Indígena, na preparação do projeto; a Assessoria Pedagógica de Brasnorte no acompanhamento e encaminhamento à Seduc, o Ministério Público pelo articulação com os órgãos estaduais e a Coordenação Regional do Noroeste do Estado de Mato Grosso – Funai - pela sua importante parceria no transporte dos professores da cidade de Juína e Brasnorte até a aldeia.
 Foi assim então que no dia 20 de abril de 2016 iniciou-se na aldeia Japuíra o tão desejado Ensino Médio em Agroecologia. 


Umenã Myky, diretor da escola, abriu a sessão invocando a presença daqueles que já partiram mas continuam vivos protegendo e inspirando a luta: luta pelo território, luta pelos direitos constitucionais, luta pela vida e pelo Bem Viver e agradeceu à comunidade a realização desse projeto alternativo.
Os 27 jovens - rapazes e moças - foram chamados e de pé responderam “are’i apakanã” = aqui estou! A comunidade toda aplaudiu orgulhosa e esperançosa.
No chão, significativamente estavam dispostos objetos da cultura myky – a rede de algodão nativo com flocos de algodão branco e marrom, o fuso das mulheres e o xire dos homens, a peneira com milho, o feijão a ser plantado, o arco e a flecha...
Encerrando esse momento, Paatau e Kamunu cantaram emocionando a comunidade.
Era o 1º dia do curso e muito significativamente, foi dada a primeira aula por Tapau Myky, professor de Língua materna.
            O curso Mekinpjaha Kaakika - Horizonte Aberto -  tem como objetivos:
v Promover a sustentabilidade socioeconômica da comunidade, qualificando os jovens mỹky para atuarem responsavelmente na construção do Bem Viver de seu povo, assegurando a integridade do Território e a soberania alimentar a partir das roças comunitárias;
v Favorecer a melhoria da situação de saúde através da maior oferta de produtos alimentícios integrantes da dieta alimentar tradicional;
v Garantir à comunidade a defesa e preservação do seu território, favorecendo as condições ambientais propicias à realização de seus rituais e aproveitamento dos recursos naturais;
v Proporcionar a recuperação dos saberes agrícolas, faunísticos e florestais tradicionais bem como oferecer acesso a novas tecnologias agrícolas e ambientais.
A proposta didática visa sempre uma perspectiva interdisciplinar, a partir do concreto, da realidade, do contexto e das expectativas dos myky.
Estamos no final da 1ª etapa e é bonito ver e sentir o entusiasmo, o interesse, e constatar a participação e a alegria da turma nas pesquisas de campo, nas aulas teóricas e práticas, apresentando os resultados em cartazes expostos pelas paredes da sala.
Acreditamos na contribuição desse curso para fortalecer e ampliar na comunidade myky a consciência do atentado à Mãe Terra explorada e devastada, onde se agrava a destruição da biodiversidade, a degradação do solo e das nascentes, a contaminação por agrotóxicos, a problemática das hidrelétricas em toda a região.
Apostamos que esse projeto se concretizará ao longo desses 4 anos em uma prática transformadora que, alicerçada nos valores fundamentais da cultura sócio-política-econômica-religiosa do povo Myky, vai ser, em verdade, um horizonte aberto de Bem Viver.

                                          Equipe do CIMI Regional MT
                                                                  Maio 2016